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A gente aprendeu a se olhar de fora

Foto do escritor: alice mirapalhete
alice mirapalhete
22 de ago.
4 min de leitura


Talvez uma das coisas mais estranhas de crescer agora seja que já não basta viver uma vida. Existe também a tarefa paralela de observá-la. Fotografar, organizar, comparar, apagar, melhorar. Escolher o que merece aparecer e, pouco a pouco, aprender a imaginar como aquilo que fazemos parece para alguém que está olhando.

Isso não começou com o Instagram.


O sociólogo Erving Goffman já escrevia, nos anos 1950, sobre a vida social como uma espécie de apresentação: dependendo de onde estamos e de quem está diante de nós, administramos gestos, roupas, palavras e maneiras de aparecer. A diferença é que essa apresentação ganhou uma infraestrutura que Goffman não poderia prever. Hoje ela pode ser registrada, editada, quantificada e comparada com milhares de outras apresentações todos os dias.


A gente não compara mais a própria vida apenas com a de amigos, vizinhos ou colegas. Compara uma terça-feira qualquer com o recorte mais interessante da terça-feira de centenas de desconhecidos. Compara o próprio corpo no espelho com corpos escolhidos, iluminados, posicionados e, às vezes, alterados especificamente para serem vistos. Compara o começo da própria carreira com o anúncio da promoção de alguém. O relacionamento por dentro com o relacionamento dos outros por fora.

Existe um problema matemático nisso: quase sempre estamos colocando uma experiência inteira ao lado de uma imagem selecionada.


Pesquisas recentes sobre identidade e redes sociais ajudam a entender o que isso produz. Uma revisão de 32 estudos, envolvendo quase 20 mil jovens, encontrou uma diferença importante entre simplesmente usar redes sociais e a maneira como elas são usadas. Apresentar-se de forma autêntica esteve associado a maior clareza sobre quem se é; já a comparação social apareceu associada a maior sofrimento relacionado à identidade. Em outras palavras, a rede não é apenas uma tela onde uma identidade pronta aparece. Para quem está crescendo, ela também é um dos lugares onde essa identidade está sendo construída.


Talvez seja por isso que tenha ficado tão difícil separar desejo de referência. A gente vê uma pessoa e quer o cabelo. Outra e quer a casa. Outra e quer a profissão. Outra e quer o corpo. Outra parece ter a personalidade certa, os amigos certos, uma cozinha bonita, livros suficientemente interessantes, férias suficientemente espontâneas. Não queremos necessariamente nos tornar aquela pessoa. Vamos recolhendo partes.

E depois tentamos montar alguém.


O resultado pode ser uma espécie de distância entre a pessoa que vive e a pessoa que ela acredita que deveria conseguir apresentar. Uma revisão sobre universitários descreve justamente essa possibilidade: redes permitem controlar a própria apresentação de maneira que o “eu” publicado pode se afastar do vivido, aumentando comparação e interferindo na própria percepção de si.


Nem a ideia de autenticidade escapou completamente disso. Em um estudo de 2025 com adolescentes e jovens adultos, participantes descreveram algo bastante curioso: valorizavam conteúdos “autênticos”, mas frequentemente esperavam que essa autenticidade ainda obedecesse a determinado nível de perfeição visual. Até ser real passou a ter uma estética.


É uma contradição muito característica do nosso tempo. Queremos parecer espontâneos com bastante cuidado.


Talvez o corpo seja onde isso fique mais visível. Uma meta-análise publicada em 2025 reuniu 83 estudos e mais de 55 mil participantes. Quanto maior a tendência de comparação nas redes, maior a associação com preocupações relativas à imagem corporal e sintomas de transtornos alimentares, e menor a relação positiva com o próprio corpo. Não significa que uma rede social produza sozinha esses problemas, nem que qualquer pessoa que use Instagram necessariamente vá desenvolvê-los. Significa que comparação repetida não é uma experiência psicologicamente neutra.


Tudo isso acontece enquanto uma geração já cresce pressionada por outros lados.

Na pesquisa brasileira da Deloitte de 2025, 47% da Geração Z entrevistada disse se sentir estressada ou ansiosa durante todo ou a maior parte do tempo. Dinheiro, futuro financeiro, família, trabalho e saúde mental aparecem entre as preocupações. Na pesquisa seguinte, de 2026, 45% dos jovens brasileiros da Geração Z disseram ter adiado alguma decisão importante da vida por insegurança econômica.

E existe a solidão.


A Organização Mundial da Saúde estima que aproximadamente uma em cada seis pessoas no mundo se sente sozinha, mas o número é maior entre jovens: entre adolescentes e jovens adultos, algo entre 17% e 21% relata solidão. É uma ironia difícil de ignorar. Nunca tivemos tantas maneiras de encontrar uma pessoa e, ainda assim, conexão e pertencimento continuam faltando para muita gente.


Talvez porque ser visto e ser conhecido nunca tenham sido exatamente a mesma coisa.

É fácil interpretar tudo isso como um problema individual. Falta de autoestima. Falta de disciplina. Uso excessivo de celular. Uma geração “frágil”. Parece uma explicação pequena para uma mudança cultural muito maior.


Estamos entre as primeiras gerações a carregar no bolso um espelho que também é vitrine, palco, arquivo, mercado e sistema de comparação. E passamos tantas horas olhando através dele que talvez tenhamos aprendido, em algum momento, a olhar para nós mesmos da mesma maneira.


Como imagem.

Como projeto.

Como algo que ainda precisa de ajuste antes de poder existir tranquilamente.


Talvez uma das tarefas mais difíceis agora seja recuperar uma experiência menos observada de si. Fazer alguma coisa sem imediatamente transformá-la em evidência. Gostar antes de descobrir se aquilo combina com a pessoa que imaginamos ser. Vestir antes de pensar em como parece. Conhecer alguém sem transformá-lo em referência. Permitir que algumas partes da vida sejam contraditórias, pouco fotogênicas, inacabadas ou impossíveis de explicar.


Não para abandonar a imagem.

Mas para lembrar que existe alguém antes dela.

 
 
 

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