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A moda não tem só um problema de material. Tem um problema de quantidade.

Foto do escritor: alice mirapalhete
alice mirapalhete
22 de ago.
3 min de leitura

Existe uma imagem que deveria aparecer sempre que alguém fala em sustentabilidade na moda: uma praia coberta de roupas.


Não é uma campanha. Acontece em Accra, capital de Gana. A cidade abriga Kantamanto, um dos maiores mercados de roupas de segunda mão do mundo. Cerca de 15 milhões de peças usadas chegam ao mercado todas as semanas, principalmente de países do Norte Global. É muita roupa, inclusive para uma estrutura criada justamente para recuperar, consertar e revender roupas. A organização The Or Foundation estima que aproximadamente 40% do que passa por ali termina como resíduo. Parte desse material chega aos canais da cidade e ao litoral, onde roupas se enrolam umas nas outras e formam massas de tecido que a organização chama de textile tentacles. Há equipes retirando toneladas desse material das praias de Accra semanalmente.

É difícil olhar para uma praia tomada por camisetas, calças e vestidos e continuar tratando sustentabilidade apenas como uma discussão sobre qual fibra escolher.

Porque talvez o maior problema da moda contemporânea seja mais simples e mais incômodo: estamos produzindo coisas demais.


Entre 2000 e 2015, a produção mundial de roupas dobrou. No mesmo período, o tempo de uso das peças caiu 36%. Hoje, cerca de 92 milhões de toneladas de resíduos têxteis são geradas todos os anos. O próprio Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente reconhece que o aumento dos volumes de produção e consumo está acontecendo rápido o suficiente para superar parte dos avanços feitos na tentativa de tornar produtos e processos mais sustentáveis. Esse ponto muda bastante a conversa.


É possível produzir uma camiseta com algodão certificado, reduzir água no tingimento, usar embalagem reciclada e melhorar a rastreabilidade da cadeia. Tudo isso é importante. Mas se essa camiseta fizer parte de um sistema que precisa lançar milhares de peças novas continuamente, estimular compras cada vez mais frequentes e substituir o que ainda poderia estar sendo usado, existe uma contradição que nenhum selo resolve sozinho.


Uma peça pode ser melhor. O sistema ainda pode ser excessivo.


A moda aprendeu a tratar novidade como necessidade. Uma roupa deixa de ser desejável não quando acaba, rasga ou perde sua função, mas quando outra chega. Coleções dão lugar a lançamentos, lançamentos dão lugar a novos lançamentos e, em algum ponto, uma quantidade absurda de matéria, energia e trabalho passa pelo mundo para sustentar uma sensação de novidade que dura pouco.


Talvez por isso falar em “consumo consciente” colocando toda a responsabilidade sobre quem compra seja insuficiente também. O consumidor participa, evidentemente. Mas existe uma indústria inteira projetando produto, preço, publicidade e velocidade para que comprar novamente pareça natural. O PNUMA descreve o atual modelo da moda justamente como baseado em novidade, imediatismo e descartabilidade.

Sustentabilidade, então, não deveria significar apenas produzir a mesma quantidade de coisas com materiais um pouco melhores. Talvez precise significar produzir menos coisas.


Fazer peças que suportem uso. Que possam permanecer interessantes depois de uma estação. Produzir numa escala que permita vender aquilo que foi feito, em vez de fabricar excedentes como parte normal do negócio. Reparar. Reutilizar. Circular. E aceitar uma ideia que parece quase incompatível com a lógica de crescimento permanente: nem toda oportunidade de vender mais precisa virar mais produto.

A praia de roupas em Gana torna essa discussão menos abstrata. Em algum lugar, o excesso precisa terminar.


E não existe tecido suficientemente sustentável para tornar infinito um planeta que não é.

 
 
 

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